Arte de compartilhar: artesãos alagoanos cativam visitantes da 13ª Feira dos Municípios Alagoanos

Além de vitrine para a economia criativa, feira promove o encontro entre artistas de diferentes regiões e reforça a importância do intercâmbio cultural para o fortalecimento do setor

Texto: Manoelle Gouveia

Artesão de Boca da Mata – Foto: Victor Martiniano

Mãos que esculpem a madeira ou que bordam tecidos carregam um trabalho que vai além da criação: o de compartilhar saberes. Mais do que uma vitrine de peças repletas da identidade cultural alagoana, a 13ª Feira dos Municípios Alagoanos – Congresso Expo, encerrada neste domingo (25) no Centro de Convenções Ruth Cardoso, em Jaraguá, revelou a face mais generosa do artesanato. Entre os estandes, o público não apenas admirou obras, mas testemunhou a filosofia de mestres que enxergam no ensino uma forma de perpetuar a memória de seu povo.

A representação de Boca da Mata trouxe um exemplo vivo de sucessão familiar com o Mestre André da Marinheira. O artesão, Patrimônio Vivo de Alagoas, trabalha com escultura em madeira desde os 12 anos, seguindo uma tradição de pai para filho, e hoje vê a filha seguir seus passos. Expondo pela primeira vez em uma feira, Natália da Marinheira adapta a arte tradicional do pai em miniaturas, que se transformam em colares, pingentes e brincos.

André da Marinheira e sua filha Natália da Marinheira – Foto: Manoelle Gouveia

Ambos destacam a tradição familiar e a importância das feiras para a divulgação de suas criações. “Meu sustento provém exclusivamente do artesanato. Estes eventos permitem a troca de ideias com outros artesãos, o contato com turistas e incentivadores, além de ser uma fonte de inspiração. Chego em casa com vontade de criar mais”, ressaltou Mestre André. Natália considera o evento um “pontapé inicial muito bom” para a visibilidade de sua produção. “No futuro, quero chegar aos pés do meu pai e já divulgou o trabalho dele em vários estados e até fora do país”, revelou.

Em visita à feira, o deputado estadual Alexandre Ayres celebrou o resgate do evento para o fortalecimento da cultura local e destacou a importância do intercâmbio entre artistas. “Estou muito feliz de estar aqui hoje vendo esse belo trabalho. Cada estande está mais lindo do que o outro, e os artistas estão animados vendendo os produtos para alagoanos e turistas. Nossos artesãos precisam ser valorizados; essa economia criativa não pode se perder em troca da modernidade das redes sociais”, afirmou.

Poder transformador do artesanato

Aline Caju – Foto: Manoelle Gouveia

Entre peças de cerâmica, bordados em filé, crochê e arte em couro ou fibras de coco, surge a manifestação cultural de Belo Monte, que revela talentos que transformaram a rotina do campo em arte. Aline Caju e Andréia Bordados são mulheres que equilibram a lida na agricultura com a escultura e o bordado.

Aline, aos 38 anos, encontrou na madeira uma via de realização pessoal sob os ensinamentos do mestre Jasson. Para ela, esculpir é um ato de liberdade que viabiliza, inclusive, o cuidado dedicado ao filho de sete anos, pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA). “No primeiro momento, eu não imaginava que era capaz de fazer o que faço. Hoje, para mim, é muito gratificante. Estar pela primeira vez na feira é um sonho realizado”, contou.

De família bordadeira, Andréia, de 44 anos, carrega em sua arte a herança afetiva de uma tia, transformando o aprendizado de infância em profissão após o incentivo de Aline Caju e Jasson. “Sempre bordei para mim e tudo o que aprendi ensinei para meus filhos e, agora, netinhas. Só em 2023, com o incentivo dos amigos, tirei minha carteira de artesã e comecei a expor minhas peças. Para mim é uma maravilha; eu me vejo no bordado”, relatou.

Inclusão social e perpetuação das tradições

A transmissão de saberes como ferramenta de inclusão social e perpetuação das tradições dos povos originários foi destacada pelo professor e artesão de Porto Real do Colégio, Rôndone Ferreira Santos. O artista iniciou sua jornada nas artes plásticas sob a tutela do escultor Jorge Maia e hoje domina um repertório que inclui colagens, pintura em cerâmica e o uso de pigmentos naturais em tela.

Andréia Bordados – Foto: Manoelle Gouveia

Além de suas criações, Rôndone realiza um trabalho de incentivo às tradições do povo Kariri-Xocó, ao estimular a produção de utensílios em barro para receberem pinturas. “Precisamos trabalhar essa identidade e resgatar o amor pela pintura e pela tradição do barro, que tem se perdido. Se não começarmos com as crianças e jovens agora, nossa cultura vai se perder”, alerta o artesão.

Recentemente, o artista iniciou em sua cidade um projeto de aulas gratuitas de desenho e pintura para alunos do ensino médio em situação de vulnerabilidade social e para a terceira idade. Sua intenção é ampliar a ação para estudantes das escolas municipais. “Eu incentivo a arte porque é difícil trabalhar com isso no interior, mas buscamos desenvolver o talento dos jovens para tirá-los da marginalidade e das coisas ruins que o mundo moderno oferece”, concluiu.